03.06.08
O Que As Pessoas Não Sabiam
No meu segundo ano, longe do meu colete, do aparelho dentário, dos meus óculos, da minha franja fora de moda, lá estava eu, ainda com os mesmos complexos, a mesma simpatia tímida e a impossibilidade de responder qualquer insulto. Fechada. Eu sorria. Por fora. Apenas por fora. Conheci a Karina. Ela sentava quase grudada no quadro negro. Milhões de graus de miopia!!! E quando sua vista cansava muito, eu copiava a matéria pra ela. Eu gostava de deslizar a caneta pelo papel, não era então, nenhum esforço pra mim. Ela era como eu, tímida e sorridente. Pronto. Não sentíamos necessidade de agradar aos outros nem de nos misturarmos à galera do fundão... Ou à galera popular, como costumam dizer. Brincavam de nos comparar a Clara e Rafaela, da novela Mulheres Apaixonadas. Não lembro direito, mas lembro que um garoto que Karina estava a fim chegou a brincar também... Foi por isso que pedi que parassem. Eu simplesmente não me importava... Mas ela , sim, mesmo que fosse pouco... Eu não era lésbica. E se fosse? Foi aí que percebi que se quando eu estava em casa, eu vivia trancada isolada no meu quarto, com portas e janelas fechadas (às vezes, até com luzes apagadas e som alto), e só saía se fosse pra visitar a minha amiga pra comer brigadeiro, estudar e falar bobeira... Com certeza não era por causa dos outros. Era por minha causa. Eu não me encaixava em quase nada do que acontecia à minha volta. Meu mundinho era mais fácil, com vilões em corpos sensuais... Princesas que não eram delicadas e usavam espadas... Os vilões venciam, muitas vezes... Mas muitos dos personagens eram imortais ou quase incombatíveis. Eles surgiam do nada nas minhas histórias... Minhas histórias imaginárias não tinham fim. Enquanto minha vida era apenas uma pausa. Até meus amores eram platônicos. Era mais fácil vivê-los apenas na minha mente...